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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cuidas, ínvio, que cumpres

Cuidas, ínvio, que cumpres, iterando
Teus desinspirados, molestosos gestos
Em cargas de hirta piça,
Com distinção a foda.
A tua piça é só peso que levas,
Pois daí não vem fogo que me aqueça:
Bem sofre, gélida, sedenta,
A cona que defraudas.
Com tal inópia não folgo; mas, se aprendes,
Antes aprende a lição, qual certeza,
De como a foda basta
Curta, mas suma, sublimada.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A beleza da hora que passa

A beleza da hora que passa é breve e por isso profitemos da sua dádiva, avaramente concedida pelos deuses. Enlaço-te a mão e intimamente colho os deleites do teu calor ardente. Muda, com um gesto distraído, olho o mar e um horizonte em flamas captura-me a atenção. Um sorriso entre o espanto e o encanto sela a nossa súbita comunhão de sentidos. Desenlaças as mãos e abres os braços ofertando-me um largo amplexo que o meu corpo frui em festa. Invito-te a não fazermos mais nada a não ser seguir o desaparecente sol. Assim, permaneceremos abúlicos por fora, ainda que com o alvoroço de cem corcéis galopando pelo peito e pelo sexo. Soltar-lhes-emos as rédeas quando o inevitável ocaso ocorrer. Nesse instante, o fulgor do astro descerá sobre nós e arrojar-nos-á para o paraíso da exaltação dos corpos. A beleza da hora fugidia cessou. Sabiamente saboreámos-lhe os fugazes frutos doces. Saibamos também não defraudar os caprichosos Eros e Afrodite, para que consintam em nos coroar a jucunda fronte.

É a hora! Osculemo-nos...

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Amante de homens mil

Amante de homens mil, entre os quais destaco Camões e Bocage, confesso o meu favoritismo por Fernando Pessoa. Adorava metê-lo nos meus lençóis e introduzi-lo nos paraísos da carne. Excita-me a sua aparente virgindade e constante punhetice. Excita-me ele ser muitos. Um homem com tantas personalidades não me cansaria. Um dia com o arrebatado Álvaro de Campos, a foder pelos becos da cidade; outro, a aquecer o frio e contido Ricardo Reis; depois, a esfodaçar pela natureza, com Alberto Caeiro. Se me apetecesse uma dança aristocrática, pedir-lhe-ia a máscara do Barão de Teive; se preferisse mordiscar petiscos estrangeiros, convidaria Alexander Search. E depois os outros todos...

Não desdenho a verga pujante do nobelizado Llosa ou do tropicaliente Jorge Mamado, nem a língua do cínico António Lambe Antúrios, nem ser levada à sétima esfera pelos coitos vagabundos com Mário de Car(v)alho. E porque não desprezo os neófitos, desde que talentosos, sonho com um dueto com o fulgurante e polivalente Afonso Cruz, que faria da minha cona uma harmónica.

Depois os imediatamente acessíveis: louros, morenos, altos, baixos, peludos como gorilas, de pele lisa como golfinhos, jovens de gestos ansiosos, maduros buscadores de pinanço a torto e a direito, nacionais e estrangeiros, com preferências para os dedicados italianos e os aplicados eslavos, passantes na rua que me trespassam com a selva de um olhar, músicos de pose lasciva, professores que pregam os olhos no meu corpo, médicos que se surpreendem quando lhes entro no consultório, empregados de mesa que retêm suspiros enquanto me servem o linguado ou a salpicão e eu lhes escrutino as reacções da zona escrotal. E que dizer dos disponíveis desempregados, ávidos de uma satisfação qualquer, dos colegas que se calam quando passo, dos chefes que se levantam quando chego, dos toureiros que exibem as suas cinturas varonis, dos businessmen-vedetas entesoados pelo ganho de mais um milhão, dos frequentadores de ginásios que transpiram testosterona?

Ah, não ser eu toda a amante em toda a parte, senti-los todos de todas as maneiras...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Há homens assim

Era uma tarde de verão e ele enviou-me um sms: «Vem sentar-te comigo, Méssaline, à beira do rio».

Hesitei, pois a luz aguda e o calor ainda picavam e, principalmente, porque estava com disposições muito mais forniciosas do que contemplativas. Aceitei com a condição de ser mais tarde, já perto do crepúsculo, hora conselheira em matéria de lascívia.

Lá fui, estava ele, muito sossegadamente, fitando as águas levemente correntes. Pediu-me para enlaçarmos as mãos porque a vida passa como o rio, dizia.

Obedeci, mas aquela água a fluir, o levantar das brisas vespertinas e as mãos quentes começaram a fazer-me subir calores e humores lubricosos. Pus-me à sua frente e levei as suas mãos até às minhas mamas, lembrando-o de que aí, sob essa carne, para além de a vida também passar, corre um rio de sangue quente.

Insistiu que fôssemos inocentes, que tudo passa e nenhum envolvimento vale a pena. E eu, pousando-lhe a mão aberta sobre a braguilha:

— Deixa-te de brincar às crianças adultas antes que a tusa passe como a vida.

— Mas depois disso nada regressa, não há mais nada.

— Se ficares sempre para aí parado, a tusa nunca há-de vir nem partir, nem regressar.

— Vai tudo para muito longe, para o pé do Fado.

— Eu é que vou para bem longe, se continuas com essas conversas de empata, vou para o lado da Foda.

— Não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

— Então, pelo menos gozemos. Gozemos até ao fim, até ao fundo.

— Mais vale saber passar silenciosamente, sem desassossegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz.

— Deixa-me começar, que o mastro logo se levantará, pronto para zarparmos desta pasmaceira e gritar até revirarmos os olhos de inveja aos passantes. Iniciemos esta viagem de vaivém, assim, suavemente, a teu gosto, amigo.

— Amemo-nos apenas tranquilamente.

— Sim, pode ser, mas totalmente. Osculemo-nos pelo corpo todo, por dentro e por fora, demos apertados amplexos e permutemos carícias íntimas sem limites.

— Mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o.

— Lá vens tu com a mesma história. Olha, ficamos a ouvir e a ver o rio, mas um enfiado no outro.

Devíamos colher flores.

— Pode ser, mas para me excitares com uma chuva de pétalas sobre o meu colo, que depois banharás com o teu rio, com a tua espuma, e para ficarmos assim não crendo em mais nada a não ser no presente da nossa divina foda, ali debaixo daquela sombra. Sempre que por ali passarmos teremos lembranças ardentes. Ou vamos ficar aqui como patetas inocentes?

— Se apenas fitarmos o rio, quando já não estiver contigo, nenhuma lembrança te ferirá.

— Quando aqui não estiveres, também colherei flores com que ornarei a minha fronte de ninfa pagã, em tua homenagem. Foderei com o barqueiro a lembrar-me da foda que dei contigo, aqui, mas só se agora te deitares comigo à beira-rio e me satisfizeres as vontades da carne. Levanta-me as saias até ao regaço, lambe-me e morde-me a cona até ela se vir na tua boca e depois, vem-te, em cascata, em rio, sem contenção, que isso que propões, Ricardo, é para a casta e sonsa Lídia.